mitologia - mitologia grega

O castigo de Sísifo

Sísifo, o mais astuto dos homens, como o chama Homero, passa por ter sido o fundador de Corinto. Tornado rei dessa cidade marítima em que foram construídas as primeiras trirremes, favoreceu a navegação, o comércio e fez dessa cidade de dois portos, erguida entre dois mares, o mais florescente entreposto de todas as riquezas que pudessem, tanto da Ásia como da Europa, aportar-lhe por belas e brilhantes embarcações.

Fecundo em recursos e de espírito rico em artifícios, Sísifo apenas subiu ao trono, não tardou a dar, de sua habilidade, uma prova brilhante. Aconteceu, com efeito, que um de seus vizinhos, o rei de Ítaca, via seus grandes rebanhos desaparecerem dia a dia. Como não conseguisse reaver os bois, nem descobrir o ladrão do gado, Laerte, o sábio rei de Ítaca, teve que recorrer ao engenho afamado de Sísifo. O rei de Corinto foi então, a Ítaca, tomou de um ferro em brasa e imprimiu um sinal sob os cascos dos grandes bois de Laerte. Os animais assim marcados, entretanto, desapareciam. Investigando os estábulos e inspecionando os cascos de manadas, acabaram por descobri-los nas profundas estrebarias de Autólico. O esperto filho de Hermes aumentava seus rebanhos roubando, durante a noite, os dos outros. E para tornar irreconhecíveis os animais que furtava, modificava-lhes a aparência, tornando chifrudas as cabeças mochas e mudando, à vontade, a cor dos pelos. Como, porém, esquecera-se de fazer desaparecer o sinal que Sísifo fizera sob os cascos dos últimos bois furtados, Autólico, confessando a pilhagem, devolveu todo o gado que havia roubado.

Sísifo, entretanto, pela sua conduta desleal, deveria atrair sobre si, em seguida, um castigo pouco comum. Um dia, conta-se, Zeus raptou Egina, a desejável filha do Deus-rio Asopo. Desolado com o rapto, o Deus fluvial procurou por toda a parte a filha desaparecida. Foi até Corinto indagar dela ao rei dos Olímpicos, levando sua presa, atravessava o território de Corinto, Sísifo percebera o divino raptor. Disse, então, a Asopo:

- Eu sei o nome, Asopo, do ladrão de tua filha. Não o saberás, no entanto, enquanto não fizeres brotar, na cidadela que está desprovida de água, um manancial de água pura.

- Dize, – respondeu Asopo – e logo que esse nome fatal sair de tua boca, do próprio rochedo brotará uma fonte límpida.

Sísifo, então, pronunciou o nome do culpado. Mas Zeus não tardou a punir a imprudente maledicência e encarregou o Deus da Morte, Tanatos, de apoderar-se de Sísifo. O herói coríntio, porém, estava de sobreaviso, bem longe de se deixar prender, apossou-se de Tanatos. Por causa disso, ninguém mais morria. Hades, o rei das Sombras, queixou-se a Zeus e este mandou Ares, o Deus temível da guerra, libertar Tanatos. Uma vez quebrados seus grilhões, a Morte, secundada por Ares, conduziu Sísifo para as sombrias moradas. O mais astuto dos homens, porém, deveria ainda escapar-lhe, conseguindo evadir-se dos Infernos. Antes de morrer, com efeito, havia ordenado à esposa não lhe prestar nenhuma das honras reservadas aos defuntos. Chegando entre os Mortos, Sísifo queixou-se amargamente da negligência de que era objeto, enganou Hades e Perséfone, obtendo deles a autorização de subir à luz para punir a esposa e reconciliá-la com o respeito devido aos manes dos Mortos, prometendo, outrossim, voltar a descer às regiões subterrâneas logo que sua missão estivesse cumprida. Uma vez sob o Sol, Sísifo recusou-se a tornar a partir para o mundo das profundezas, continuando a viver e a reinar em Corinto. Quando, finalmente, após longos anos, Hermes reconduziu-o para a mansão de Hades, o astuto rei foi condenado a rolar penosamente, com a ajuda dos ombros e das mãos, um enorme rochedo até o cume de uma abrupta montanha. Quando estava prestes a alcançá-lo, o rochedo tornava a cair sozinho na planície e Sísifo devia, e para a eternidade, recomeçar o inútil trabalho.

Fonte:
Mitologia - Edith Hamilton - Martins Fontes